As leituras desta Quinta-feira Santa, ressoam em mim alguns elementos comuns: o que esses sinais têm a nos dizer hoje? Que boa nova nos é anunciada?
A passagem de Deus na noite: «Eu passarei nesta noite pela terra do Egito» (Ex 12,12). «O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue…» (1Cor 11,23b); a perícope após o lava-pés conclui dizendo: «era noite» (Jo 13,30b). Os discípulos sentiram o peso daquela noite, de suas próprias escuridões, dúvidas e incompreensões. No entanto, aquela noite foi cenário da vitória de Deus; e, do ponto de vista astronômico, é iluminada por uma lua cheia (do equinócio): «já não há noite, tu és luz». Mais uma vez, Deus nos mostra que nada fica fora dele. Deus «salta» nossas noites; mesmo ali chega seu amor, sua presença: «nem as trevas são escuras para ti, a noite é clara como o dia».
Na ceia do Êxodo, Deus pede que comam com rapidez, talvez recordando-lhes a condição da qual seriam libertados. Lembro-me de um frei que, quando lhe perguntávamos o que nos caracteriza ou distingue como congregação, respondia com humor: «comer depressa». Assim, hoje muitos dos que trabalham o dia inteiro — de alguma forma dominados pelo tempo, pela correria, por estar aqui e ali, indo e vindo — costumam comer dessa maneira e acabam se acostumando. Que esse comer depressa não seja a escravidão do ativismo, do individualismo, do não delegar, de uma missão não partilhada…, mas que seja uma pressa salvadora, porque «o amor de Cristo nos impele» e porque estamos em saída, caminhando como povo.
Na travessia do Êxodo, os relatos que seguem a Páscoa continuam mostrando detalhes fortes e eloquentes. Deus responde à sua maneira. Quatrocentos e trinta anos de espera (Ex 12,40), como para acalmar a ansiedade dos nossos tempos. E mais quarenta anos dando voltas pelo deserto. Além disso, Ele os faz seguir pelo caminho mais longo, para que não voltassem atrás (Ex 13,17). Parece que tinham razão de reclamar: o que Deus queria? Qual era o sentido? Não é fácil compreender os caminhos do Senhor: «o que eu faço, tu não entendes agora; mais tarde compreenderás». Resta-nos a confiança de que há um plano, uma terra prometida, uma aliança, uma vida nova e plena que se realiza ao modo de Deus.
No Novo Testamento, esta ceia é memória, é presença e é para todos. São Paulo insiste na maneira digna de participar da Ceia do Senhor. Nesse contexto, o gesto do lava-pés é um gesto profético sem palavras, que evoca entrega e humildade. Judas e Pedro demonstram que não entenderam nada do messianismo que Jesus quer lhes ensinar. Nenhum quer que o seu mestre se rebaixe. Ambos — e os demais em silêncio — não compreendem o que Jesus faz. Ele se identifica sempre com o último; sua liderança vem de baixo. Também hoje isso é difícil de entender em uma mentalidade voltada ao sucesso.
A kénosis: aparece em toda a liturgia deste dia. Deus se abaixa até onde está o povo oprimido. Jesus se coloca aos nossos pés, se ajoelha diante de nós. Torna-se servo, esvazia-se de sua condição…, «humilhou-se até submeter-se…». Mas sabe quem é. Seu modo de agir nos recorda o paradoxo do Reino de Deus: «quem se humilha será exaltado; quem morre viverá; quem perde a sua vida por mim a encontrará»… Jesus nos mostra o caminho inverso: uma nova ordem, uma nova liderança, a revolução do amor.
Penso no poema de Pedro Casaldáliga: «Meu corpo é comida. Eucaristia fraterna e subversiva»; uma mesa partilhada como irmãos, sem distinções, sem categorias nem hierarquias. Na mesma linha de São Paulo: judeus, gregos, escravos, senhores, ricos, pobres… em «unidade de classes»; essa é a verdadeira Ceia do Senhor. Como nos custa hoje entender e viver isso; deixar de lado rebeldias, egos, orgulho, triunfalismos, complexos de superioridade. Mal sentimos que somos rebaixados, reagimos; não suportamos que passem por cima de nós, queremos colocar em seu lugar aqueles que ousam nos colocar por baixo. Eucaristia fraterna e subversiva, de um Deus manso e humilde de coração.
Ser discípulos de Jesus é ir contra a corrente, até mesmo contra nós mesmos; é dobrar-nos por um bem maior, porque isso traz em si um germe de transformação, no silêncio, a partir do pequeno, ou na noite. Somente os simples, os humildes, os pacíficos, os livres, os «bem-aventurados»… podem compreender e viver a partir dessa lógica.
Nestes dias, circulou nas redes que está sendo gravada a sexta temporada da série “The Chosen”. As publicações mostram o que significou para os atores e seu diretor reviver cada momento da paixão de Jesus; eles o sentiram na própria carne. Ao ouvir tantas vezes essas leituras, podemos cair na tentação de banalizar sua mensagem, de nos acostumar, de achar que é sempre a mesma coisa: «o que podem nos dizer de novo?» — ainda mais sabendo o final. Somos hoje seus discípulos e discípulas; coloquemo-nos em algum canto, acolhamos este mistério de amor com um coração que se comove. Vivamos esta Semana Santa como se fosse a primeira vez, como Boa Nova.
Irmã Patricia Contreras
Província Santa Rosa de Lima













