O livro do Eclesiastes nos convida a refletir sobre a vida e a compreender seu sentido mais profundo. Para o autor, tudo é pura ilusão, como tentar agarrar o vento; vaidade das vaidades. Não se trata de pessimismo, mas de realismo. É uma observação e contemplação direta do que acontece na vida. Uma sabedoria que chega ao limite para se conectar com a profundidade do ser e reconhecer que tudo, até os menores detalhes, depende de Deus.
O salmo 89 (90), por sua vez, responde a esta primeira leitura como reflexo da oração do povo de Israel — expressão da experiência humana voltada para Deus. O que é o homem diante de Deus e Deus diante do homem? Um ser frágil como a erva cortada, efêmero como a noite; por mais longa que seja a vida, e por mais que se esforce, isso cansa e é vaidade. Por isso o salmista pede sensatez a Deus, que manifeste sua compaixão, que compense as dores e alegrias com seu amor, no qual o homem encontra refúgio, alegria e júbilo.
São Paulo, por sua vez, afirma e desenvolve a centralidade de Jesus Cristo, apresentando-O como Senhor de toda a criação, que acolhe todo ser humano, de todas as raças e nações. Suas palavras favorecem a salvação que é Cristo, aquele que liberta dos medos e angústias da vida. Por isso a exortação é buscar as coisas do alto, onde está Cristo, e afastar-se do que é terreno e nos afasta d’Ele; tendo uma vida moral que mostre que seus ouvintes se despojaram do homem velho e de suas obras, para se revestirem do homem novo, que se renova, pelo conhecimento, à imagem de seu Criador.
Lucas, escrevendo para uma comunidade cristã composta majoritariamente por pagãos e geograficamente distante da Palestina — irmãos chamados a serem testemunhas do plano libertador de Deus no mundo, plano que se baseia no poder de Deus que age na Igreja como novo povo de Deus, por meio do Espírito de Jesus — reforça a ideia de viver segundo esse Espírito e não segundo o que é meramente terreno.
Pelos lábios de Jesus, ele nos relata o episódio de um homem que pede ao Mestre que diga a seu irmão para dividir a herança. Jesus recorre a uma parábola para fazê-lo compreender que o essencial é acumular tesouros no céu e não na terra; que é mais importante ser rico aos olhos de Deus. Isso não significa que Ele seja contra a riqueza ou o bem-estar humano, mas sim que o coração humano não deve apegar-se ao material; que a ganância e a ambição não impeçam a entrada no Reino eterno. Pois, no afã de acumular, o homem se desvia do verdadeiro tesouro, fadigando-se inutilmente por ganância, esquecendo que nada levará deste mundo, a não ser suas boas obras.
Se fizermos um breve percurso pelas leituras de hoje, perceberemos um fio condutor: desde a fadiga e a vaidade mencionadas por Coélet no Eclesiastes, passando pelo salmo 89 que reforça a ideia da brevidade e fragilidade da vida humana; pela carta aos Colossenses, que nos convida a um estilo de vida segundo o Espírito, em contraste com o terreno; até chegar nos ensinamentos de Jesus que, no Evangelho de hoje, nos fazem tomar consciência de que a vida está nas mãos de Deus — que hoje vivemos, mas amanhã não sabemos. Por isso não podemos desperdiçar nossa vida, nossas forças, nem colocar em risco nossas relações humanas por bens materiais que hoje temos ou desejamos ter, e dos quais pode-se pedir contas ainda hoje, ou mesmo esta noite, e não teremos vivido para aproveitá-los.
Não é preciso ir longe, basta ligar o noticiário para ver e ouvir tudo o que o ser humano é capaz de fazer por ganância, ambição, sede de poder, apego aos bens materiais, às aparências, à banalidade. Quanto mal poderia ser evitado se educássemos o coração e quanto bem poderíamos fazer se soubéssemos partilhar? Mesmo aqueles que não conhecem a Deus, ao partilhar os bens, praticar a justiça e dar a cada um conforme sua necessidade, já abrem uma porta para a presença do Reino de Deus entre nós.
Vivamos, pois, com intensidade cada momento de nossas vidas, valorizando quem está ao nosso lado, contentes com o que temos — não com um olhar conformista, mas sim com desprendimento, partilha, fraternidade — que nos leve a viver a justiça, o amor, o respeito, a paz e o compromisso com os outros, tornando presente o Reino de Deus, que não é comida nem bebida, mas graça no Espírito Santo.
Caminhemos rumo ao homem perfeito que é Cristo, tenhamos os mesmos sentimentos d’Ele, para iniciar uma mudança interior em cada um de nós, em nossas comunidades e entre os que nos são próximos, e assim estender essa transformação às nossas obras, locais de trabalho, sociedade e ao mundo inteiro. Utopia? Talvez. Mas se a mudança começar em mim e em você, já é um passo em direção a uma vida nova. Sejamos o evangelho vivo que as pessoas possam ler e descobrir o Deus de Jesus — o Deus do amor.
Irmã Marisol Barrios
Irmã Dominicana da Anunciação
Comunidade de Luque, Paraguai













