Neste domingo, o Livro do Deuteronômio nos diz: “Esta palavra está bem perto de ti, está em tua boca e em teu coração, para que a ponhas em prática” (Dt 30,14). E o Evangelho também termina com um convite para colocar em prática o que foi escutado: “Vai, e faze tu também o mesmo” (Lc 10,37).
O conteúdo da Palavra que o Evangelho de hoje nos chama a praticar está expresso na conhecida parábola do bom samaritano, e pode ser resumido como uma conversão do nosso coração ao amor compassivo e misericordioso de Deus, que se traduz no cuidado com o outro que necessita de atenção. Curiosamente, a pessoa necessitada que esta parábola coloca diante dos nossos olhos é um estrangeiro, totalmente oposto à mentalidade judaica, visto como um ser desprezível e impuro, que não era considerado um próximo digno de ajuda.
O Papa Francisco dedica um capítulo da encíclica Fratelli Tutti a aprofundar a parábola do bom samaritano, ao tratar do amor universal que deve nos caracterizar. Ele afirma que “o amor não se preocupa se o irmão ferido é daqui ou de lá. Porque é o amor que quebra as correntes que nos isolam e separam, construindo pontes; amor que nos permite construir uma grande família onde todos possam se sentir em casa… Amor que conhece a compaixão e a dignidade” (FT, n.º 62). Como é necessário hoje romper os muros culturais, ideológicos e raciais com os quais nos rotulamos, afastamos e até destruímos, para considerar, em vez disso, ¡toda pessoa como nosso irmão ou irmã!
O samaritano para, colocando em segundo plano seus próprios planos para atender à urgência do irmão ferido. Ele deixa seus interesses pessoais em segundo plano e oferece, com generosidade, um bem que hoje consideramos precioso: o tempo pessoal. Ele se detém para cuidar do outro necessitado: vê, aproxima-se, age; cuida dele e passa a noite a seu lado. Oferece seu tempo, testemunhando que não há nada mais importante a fazer naquele momento. Custa-nos doar nosso tempo: “como todos estamos muito concentrados em nossas pequenas necessidades, ver alguém sofrendo nos incomoda, nos perturba, porque não queremos perder tempo com problemas alheios” (FT, n.º 65). Quanto bem podemos fazer ao outro se nos detivermos para ouvir sua história, nos interessarmos, oferecer um gesto de afeto, libertando-nos das nossas próprias urgências!
Por fim, hoje falamos da “ética do cuidado”, que este Evangelho pode inspirar. Cuidar do outro é a experiência mais genuína do amor, porque ele é sempre concreto e curador. O samaritano aproximou-se do homem maltratado, enfaixou suas feridas, tratou-as com óleo e vinho, colocou-o sobre seu animal, procurou abrigo e envolveu o hospedeiro. Ele não passou ao largo, não se questionou se aquele era um “próximo”, ¡assumiu a responsabilidade pelo irmão!
Seguramente é por aqui que deve passar a “conversão ao Senhor, nosso Deus, com todo o nosso coração e toda a nossa alma”, da qual fala a primeira leitura, tendo em conta que o mandamento do Senhor “não excede as nossas forças, nem está fora do nosso alcance” (Dt 30,10-11).
Ao refletirmos sobre esta parábola do bom samaritano, fazemos nossas as perguntas de Fratelli Tutti: “Inclinamo-nos para tocar e curar as feridas dos outros? Inclinamo-nos para carregar uns aos outros nos ombros? Este é o desafio atual que não devemos temer enfrentar” (n.º 70).
Irmã María Inés Fuente
Priora Provincial
Província Santa Rosa de Lima













