O Evangelho deste dia nos convida a ir além da superfície. Às vezes, quando lemos este texto de Mateus, paramos para pensar em quão exigente Jesus parece. Ele nos fala da Lei, de não jurar, de não nos irarmos, de cuidar até mesmo do olhar. Mas, se o contemplarmos atentamente, percebemos que Jesus não veio para nos dar mais “regras” que compliquem a nossa vida, mas para nos pedir algo muito mais profundo: autenticidade.
Vivemos numa realidade em que nos tornamos especialistas em “aparência”. Nas redes sociais, no trabalho e às vezes até na igreja, esforçamo-nos para parecer pessoas “corretas”. Cumprimos o mínimo para que ninguém nos aponte o dedo. No entanto, hoje Jesus nos diz: “Se a vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus.”
O que isso significa para nós hoje? Significa compreender que não é preciso empunhar uma arma para tirar a vida de alguém. Jesus nos confronta com uma realidade incômoda: às vezes matamos lentamente os outros com a nossa indiferença ou com o desprezo frio por aqueles que pensam diferente de nós.
Hoje, o “assassinato” mudou de cenário, mas não de intenção: comete-se por trás de uma tela, por meio de comentários de ódio nas redes sociais. Executa-se em conversas privadas através da fofoca, que age como um veneno que destrói a reputação de um irmão em segundos. Manifesta-se quando invalidamos a dignidade dos outros simplesmente por serem diferentes.
Jesus nos ensina que a verdadeira oração é inseparável da caridade fraterna. O rito não deve ser um refúgio para evitar os conflitos humanos, mas o fruto de um coração em paz. Deus não busca sacrifícios externos, mas a oferta de um orgulho vencido e de um abraço que restaure o irmão ferido. Num mundo fragmentado pela desesperança, o cristão é chamado a ser ponte e não muro, compreendendo que a oração nos conduz ao perdão. Não se pode caminhar para o altar dando as costas ao próximo, pois a identidade do crente encontra seu valor na capacidade de curar vínculos. Assim, a reconciliação torna-se a liturgia mais autêntica e necessária para um verdadeiro encontro com o Pai.

Ir. Angela del Rosario Ruiz Flores
Comunidade de Chiltiupán, El Salvador, Província São Martinho de Porres.













