O Evangelho deste domingo nos apresenta três elementos importantes:
- O Céu Aberto: não se trata de uma ruptura física, mas da eliminação da barreira entre o divino e a humanidade oprimida.
- Voz do Pai: um reconhecimento da dignidade que fortalece para a missão da justiça.
- • A Simplicidade: Jesus não procura tronos, procura a lama do Jordão com o seu povo.
O batismo de Jesus no Jordão marca o início de uma missão na qual a divindade se despoja de seus privilégios para mergulhar na realidade sofrida da humanidade. Ao submeter-se ao rito de João, Jesus renuncia às lógicas de dominação e soberba, escolhendo ficar na fila dos excluídos e pecadores. Esse gesto não é um simples formalismo, mas um compromisso radical com a transformação social a partir de baixo, onde a justiça de Deus se manifesta na proximidade e na solidariedade com os mais vulneráveis. O céu aberto simboliza o fim da separação entre o sagrado e o profano, anunciando que a graça está agora ao alcance daqueles que lutam por um mundo mais humano. A voz do Pai, ao chamar Jesus de Filho amado, não apenas confirma sua identidade divina, mas também propõe um novo modelo de filiação baseado na entrega e no serviço. Os teólogos da libertação apresentam o batismo como o sacramento da corresponsabilidade, no qual ser filhos e filhas de Deus implica necessariamente ser irmãos e irmãs dos oprimidos, trabalhando ativamente para derrubar os muros da desigualdade e da injustiça.
Por isso: “A água do Jordão não busca a pureza do templo, mas o abraço fresco da pele calejada do trabalhador e do excluído.”
“O céu se rasga como uma ferida de luz, permitindo que o sussurro do Pai se torne o trovão que desperta a esperança dos povos adormecidos.”
“A pomba desce não como uma ave de passagem, mas como o sopro que impulsiona as naus da justiça rumo a uma margem de fraternidade radical.”
Para a transformação do mundo, somos chamados a viver o nosso próprio batismo como uma renúncia à soberba do poder, mergulhando nas lutas do nosso tempo para fazer germinar sementes de dignidade em cada canto da nossa casa comum.
Aplicando isso à nossa vida cotidiana, podemos dizer que o batismo rompe a distância entre o céu e a terra, entre o humano e o divino. Precisamos romper as barreiras atuais. Estar constantemente conectados pelo telefone ou pelas redes sociais, paradoxalmente, nos distanciou. Recordar a eficácia e a força do nosso batismo nos leva a romper distâncias com os outros: com aqueles com quem tivemos algum conflito, com aqueles que quase não vemos, com aqueles que nos feriram. O perdão nos liberta, como Jesus nos ensinou nesse gesto humilde de deixar-se batizar por João. Carregar tanto rancor nos aprisiona e nos faz perder a beleza daquilo que Jesus nos revelou através do batismo: romper cadeias e estigmas. O primeiro passo é romper as distâncias dentro de nós mesmos, para dar lugar ao encontro com o outro, com o próximo, com o meu irmão, com a minha irmã.
O segundo ponto é a indiferença e a necessidade de vencê-la. Quando rompemos o isolamento interior, descobrimos que não estamos sozinhos e que, ao nos abrirmos aos outros, a vida pode nos surpreender de muitas maneiras. Muitas vezes o sofrimento se torna mais pesado porque permanecemos fechados em nós mesmos. Ao confiar no outro — que reflete esse Jesus próximo, amoroso e atento — experimentamos uma presença que escuta e acompanha. Essa pessoa também carrega suas próprias dificuldades, mas ao compartilhar a vida nos oferece um abraço que cura. Assim, a solidão e a distância são superadas, porque nos deixamos encontrar naquele que sofre, mas continua amando.
Em terceiro lugar, a corresponsabilidade: sentir-nos irmãos uns dos outros nos ajuda a perceber que há muitas coisas que estão nas mãos de Deus, mas também outras que estão em nossas mãos. Alcançar esse equilíbrio entre Deus e nós — Ele que faz a sua parte e nós que fazemos a nossa — cria uma harmonia que nos permite seguir adiante na vida.
Por fim, o batismo nos faz filhos. E, se nos faz filhos, então existe uma relação, uma união com Deus que nada nem ninguém pode nos tirar. Parte da nossa missão é levar essa boa notícia a todos: somos filhos de Deus, e para Ele nós somos importantes. Ele está sempre ao nosso lado; não nos pede que sejamos perfeitos, apenas humanos, caminhando e lutando para sermos melhores cristãos a cada dia. Que ninguém e nada te façam duvidar dos dons que Deus te concedeu e confirmou no teu batismo. A verdadeira riqueza está no mais profundo de ti, semeada por Jesus desde o momento em que Ele te criou.

Irmã Kathia Lorena Ibarra Fletes
Província São Martinho de Porres













