I DOMINGO DO TEMPO DA QUARESMA, ANO A – 22 de fevereiro de 2026

Neste primeiro domingo da Quaresma, o Espírito conduz Jesus ao deserto. Não para o pôr à prova, mas para iluminar por dentro o combate de toda vida humana. Ali, no coração da carência, Jesus enfrenta três tentações que são a matriz de todos os nossos desvios: viver sem profundidade, crer sem confiança, agir sem amor.

A primeira tentação toca a necessidade mais elementar: o pão. O tentador murmura: «Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães.» Não pede a Jesus que renuncie a Deus, mas que prescinda d’Ele. A lógica é temível: reduzir o homem ao que consome, ao que possui. A nossa cultura da imediaticidade faz do pão a medida de todas as coisas. Mas a abundância material não cura o vazio interior. Nunca as sociedades dispuseram de tantos bens, e nunca os homens estiveram tão expostos à angústia e ao sentimento de vazio. O pão alimenta o corpo, mas não consola quem perde um ente querido, não ensina a amar nem a perdoar. Jesus responde: «O homem não vive só de pão.» Não por desprezo do corpo, mas por fidelidade a uma verdade mais profunda: o homem é um ser de relação, chamado a receber a vida de um Outro. À força de transformar pedras em pães, acaba-se por comer um pão sem sabor, incapaz de alimentar a alma.

A segunda tentação desloca-se para o terreno religioso. O tentador leva Jesus ao cimo do Templo: «Lança-te daqui abaixo, porque Deus dará ordens aos seus anjos a teu respeito.» Ele conhece a Escritura e cita-a com precisão, mas deturpa o seu sentido. Porque conhecer a Palavra não é crer. Pode-se conhecer a Bíblia de cor e permanecer fechado a Deus. O diabo pode imitar o sagrado, produzir sinais, impressionar, mas há uma coisa que não pode fazer: não pode ajoelhar-se. Não pode adorar. Porque a adoração supõe humildade, e a humildade é precisamente o que o diabo recusa. Jesus responde: «Não tentarás o Senhor teu Deus.» A fé autêntica não é uma encenação, mas uma entrega confiante. Aceita a noite, a espera, o despojamento. Não força Deus; confia-se a Ele.

A terceira tentação é a mais grave. O tentador mostra a Jesus todos os reinos do mundo: «Tudo isto te darei, se te prostrares diante de mim.» É a tentação do poder sem a cruz, do êxito sem o dom de si. Governar sem servir, triunfar sem amar até ao fim. Esta tentação atravessa a política, a economia, por vezes até a própria Igreja: fazer o bem a qualquer preço, sacrificar a verdade à eficácia. Jesus responde sem hesitação: «Adorarás o Senhor teu Deus, e só a Ele servirás.» Nenhum projeto, ainda que nobre, justifica afastar-se de Deus. Não há Reino sem a cruz, não há fecundidade sem o dom de si, não há vitória sem amor.

Estas tentações são as nossas. Atravessam as nossas vidas pessoais, as nossas famílias, a nossa Igreja. A Quaresma é-nos dada para pôr ordem nos nossos desejos. Onde Adão caiu num jardim de abundância, Cristo permanece de pé no deserto da carência. O jejum, a oração e a partilha não são pesos adicionais: são uma simplificação. Despojam-nos do que nos sobrecarrega para nos tornar mais livres. Aceitemos entrar no deserto. Não para ali permanecer, mas para aprender a escutar Deus. Onde o Filho venceu, também nós podemos avançar com confiança: a graça é mais forte do que a tentação, e a fidelidade mais fecunda do que todas as ilusões. Amém.

Irmã Marie Ange AHO

 Vicariato São Francisco Coll



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Publicado:

fev 21, 2026