Evangelho: Mateus 21, 33-43
A parábola dos lavradores maus
A parábola dos lavradores maus é uma das denúncias mais contundentes do Evangelho contra o abuso de poder, a corrupção das elites e a apropriação indevida da mensagem autêntica de Deus à humanidade: o poder revolucionário do amor.
No texto bíblico, a vinha representa o povo e toda a criação, confiada a governantes e líderes religiosos —sacerdotes e anciãos— que deveriam cuidar dela. No entanto, esses lavradores agem movidos pela ganância: sentem-se donos absolutos, silenciam ou matam os mensageiros —os profetas— e, finalmente, eliminam o Filho —Jesus— para ficar com a vinha por meio da violência.
Se transportarmos essa parábola para a realidade do século XXI, os lavradores maus são aqueles setores do poder político, financeiro e midiático que administram o mundo como se fosse sua propriedade privada, explorando-o em benefício próprio e agindo com impunidade.
Para citar alguns exemplos, o caso Epstein e as redes de abuso representam, de forma profundamente dolorosa, a corrupção moral das elites hiperprivilegiadas e ultraneoliberais. São o reflexo exato dos lavradores que se consideram acima das leis humanas e divinas, tratando os mais vulneráveis como meros bens de consumo.
Ou as guerras geopolíticas, como as entre Rússia e Ucrânia ou Israel e Palestina, entre tantas outras. Líderes políticos e militares que, empenhados em conservar ou ampliar seu domínio, sacrificam milhares de vidas humanas, destroem comunidades e devastam terras que não lhes pertencem. Assim como os lavradores da parábola, impõem a lógica do “vamos matá-lo e ficaremos com a sua herança”, destruindo o valor supremo da vida em troca de território, influência, ganhos econômicos e um falso poder.
No entanto, a chave e a esperança deste Evangelho estão no desfecho formulado por Jesus: “O Reino de Deus será tirado de vocês e será dado a um povo que produza seus frutos”, e na “pedra rejeitada que se tornou a pedra angular”.
Os silenciados, os humildes, as pessoas simples do povo; as famílias que sofrem as consequências das guerras; as vítimas que denunciam os abusos; as comunidades que cuidam do próximo no dia a dia… Todos e cada um deles representam essa pedra que os grandes construtores do poder costumam desprezar.
Este Evangelho nos recorda que a salvação do sentido humano e do projeto de Deus não procede das estruturas corruptas de poder, mas da fé encarnada nas pessoas comuns. São as pessoas comuns que preservam a empatia, a solidariedade, o desejo sincero de paz e a convicção de que a terra e a vida são um presente para ser compartilhado, e não um espólio para ser saqueado.
Em definitivo, quando as elites agem por ganância e soberba, o Evangelho nos mostra que outra maneira de viver é possível. A fé e a confiança cotidiana das pessoas comuns, capazes de perdoar, acolher e construir fraternidade em meio ao caos, são precisamente as que produzem os frutos que salvam a “vinha”. E, graças a essas pessoas anônimas, dessas vinhas sairão os vinhos que celebrarão a vida, curarão a memória do mundo e embriagarão de esperança, confiança e amor o coração da humanidade.
Eloi Nortes, FEDAC













