Leituras: Isaías 45, 1. 4-6 | Salmo 95 | 1 Tessalonicenses 1, 1-5b | Mateus 22, 15-21
¿De quem é a imagem gravada em ti?
O ser humano de hoje procura saciar a sua sede de paz e felicidade na imediatez da tecnologia, do dinheiro ou dos vícios, entregando em troca a sua própria liberdade e dignidade. Sem se dar conta, torna-se dependente daquilo que consome em meio ao ruído da vida quotidiana. Diante deste entorpecimento provocado pela cultura do consumo, a tradição contemplativa dominicana oferece o silêncio e a oração, não como uma fuga, mas como o único caminho para recuperar a lucidez e identificar, com honestidade, quem realmente molda os desejos do coração.
Diante da dispersão do mundo, a Palavra de Deus deste domingo revela onde reside a verdadeira sabedoria. Na Primeira Leitura, o profeta Isaías recorda-nos como Deus age ao longo da história, conduzindo os acontecimentos para libertar o seu povo, inclusive orientando os passos de um rei pagão que nem sequer o conhecia. Deus proclama-se o único Deus de toda a existência: «Eu sou o Senhor, e não há outro; fora de mim não há Deus.» Nada nem ninguém escapa à sua providência, e nenhuma estrutura de poder pode reivindicar o domínio definitivo sobre a vida ou o destino do ser humano.
O Salmo 95 confirma esta verdade ao declarar com firmeza: «Os deuses dos povos não passam de ídolos, enquanto o Senhor fez os céus.» Hoje, esses «deuses dos povos» mudaram de aparência, mas conservam a mesma pretensão. São os ídolos modernos: a busca excessiva pelo desempenho, a aprovação dos outros, o prazer imediato e a fuga através dos vícios. Todos prometem salvação e plenitude, mas são ídolos mudos que acabam por desgastar e escravizar a pessoa. Só Deus liberta; só Ele não consome o ser humano, mas o confirma no amor.
Para responder a esta presença de Deus no meio das exigências quotidianas, São Paulo, na Segunda Leitura, da Primeira Carta aos Tessalonicenses, felicita a comunidade, destacando «a atividade da vossa fé, o esforço do vosso amor e a firmeza da vossa esperança», recordando que o Evangelho atua com a força do Espírito Santo. Uma fé autêntica, longe de nos isolar, transforma a realidade social através de obras concretas de amor e da firmeza diante dos ídolos de cada época. Dar corpo a este chamamento é defender a dignidade humana ameaçada à luz da Verdade, unindo contemplação e justiça.
No Evangelho de Mateus, Jesus supera a armadilha da moeda do imposto, declarando: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus». Longe de dividir a vida em dois reinos separados, estabelece um princípio radical: a moeda traz a imagem do imperador, mas o ser humano pertence a Deus. Hoje, a pergunta não é económica nem política, mas espiritual: de quem é a imagem gravada no mais profundo da tua alma?
As coisas do mundo impõem a sua marca passageira, exigindo tudo em troca de muito pouco. Contudo, o ser humano não pertence a nenhum império nem a nenhuma empresa, pois traz impressa, desde a criação, a imagem do Deus vivo. Entregar a vida a Deus não restringe a liberdade pessoal; pelo contrário, resgata a pessoa de ser reduzida a um simples cliente ou a um recurso consumível.
O convite de hoje é olhar a vida com coragem e não hipotecar a liberdade em favor daquilo que é passageiro. É necessário cumprir os deveres no mundo, guardando, porém, o coração como um santuário reservado exclusivamente a Deus e examinando a alma para identificar aquilo que rouba a paz. Para além das posses e dos aplausos, a verdadeira identidade reside em sermos filhos de Deus. Renovando esta decisão todos os dias, somos chamados a entregar ao Senhor aquilo que, por direito de amor, lhe pertence: a nossa liberdade, a nossa vida e todo o nosso coração.
Irmã Karen Lorena Ramírez
Província São Martinho de Porres












