“Eu vim trazer fogo à terra, e como gostaria que já estivesse aceso!” (Lc 12,49).
Quando Jesus nos diz que veio trazer fogo, é porque já no capítulo anterior (11) e em parte deste capítulo 12, Ele vinha dizendo à imensa multidão que se aglomerava para escutá-lo, que seguir a sua mensagem, optar pelo Reino e cumprir a missão com a qual Deus nos envia ao mundo, obriga a tomar posição. A sequência dessa linguagem já aparece desde o início do capítulo 11, onde Ele nos ensina a falar com Deus como com o Pai de todos, e a confiar n’Ele que não só nos dá coisas boas, mas também o seu próprio Espírito Santo (11,13).
Nestes dois capítulos (11 e 12 de Lucas), Jesus tem como interlocutores pessoas que o criticavam, uma mulher que o elogiava, os fariseus, os doutores da Lei, uma grande multidão que se apertava para ouvi-lo (12,1) e, alternadamente, seus discípulos, aos quais se dirigia especialmente em certos momentos. Com todos eles, sua postura é radical, firme e clara, dando exemplo de como, a partir da fé em Deus, tendo o Espírito Santo como testemunha, o Reino se torna presente entre nós.
Aquele que anteriormente reconhecera (Lc 9,50) que os filhos de Deus vão além do grupo visível de seus discípulos — chamando também a confiar nos demais: “Quem não está contra vocês, está a favor de vocês” — deixa claro, no entanto, um pouco mais adiante, que quem não está com Ele está contra Ele, e quem não ajunta com Ele, espalha (11,23). Ou seja, fala daqueles que não querem se definir diante de sua mensagem e pretendem permanecer neutros, dificultando a transparência do Reino de Deus.
Chegamos, então, ao texto que hoje a liturgia nos oferece, com um Jesus que fala firme e claro, sem rodeios, com coragem e ousadia. Ele sabe e nos ensina que a nossa verdadeira riqueza está no Céu com o Bom Pai Deus, que cuida generosamente de seus filhos. Ele insiste que existe um Deus que cuida de nós (11,24) e, portanto, aqui não há nada a perder, nada a acumular, nenhum tipo de riqueza a buscar. Jesus nos convida a decidir, a deixar tudo nas mãos de Deus e confiar n’Ele, a apostar tudo por Ele e pela sua mensagem de amor. Ele nos quer firmes e coerentes com o que significa ser filhos do Deus Amor.
É o Jesus corajoso que diz que a Ele podem fazer o que quiserem, mas que ao Espírito Santo não se deve tocar (12,10), porque Deus está acima de todas as coisas. O papa Francisco dizia que o fogo vem renovar, que “o Evangelho é como um fogo, porque é uma mensagem que, quando irrompe na história, queima os velhos equilíbrios da vida” (Papa Francisco, Praça de São Pedro, domingo, 14 de agosto de 2021). E assim é: uma vez que nos abrimos à mentalidade de Jesus, começamos a ver com seus olhos, a decifrar os sinais dos tempos, a enxergar de maneira diferente. Uma vez que vivemos perto de Jesus e junto com Ele, as coisas já não podem ser como antes.
O fogo exige algo novo, “porque — dizia o Papa Francisco — ele nos desafia a sair do individualismo, nos desafia a superar o egoísmo, nos desafia a passar da escravidão do pecado e da morte para a vida nova do Ressuscitado, de Jesus Ressuscitado. Em outras palavras, o Evangelho não deixa as coisas como estão; quando o Evangelho passa, é ouvido e acolhido, as coisas não permanecem como estavam” (ibid.).
Jesus fala com uma linguagem forte e combativa, tanto aos seus seguidores mais próximos como às multidões. Falou a todos os que queriam escutá-lo com palavras inflamadas pelo fogo do Espírito e pelo amor de seu Pai, a quem buscava continuamente em oração. A todo momento convida a tomar posição, e tomar posição, mesmo que não gostemos, divide. É preciso ficar de um lado ou de outro; nesse sentido, a paz que Jesus traz não é a dos cemitérios nem a ingenuidade do “tudo bem” ou “vivamos em paz”. Ser cristão é seguir Jesus, parecer-se com Ele, deixar que o seu modo de falar e pensar nos contagie.
Ele fala a linguagem do Amor e da Misericórdia, e esta é universal, para todos, todos, todos… e eis aí já a divisão, porque há quem pense que é apenas para alguns, para os que se ajustam a certos esquemas, para os que cumprem certos padrões… Mas não sendo assim, já não é possível relativizar o Evangelho e deixar que tudo passe, que tudo entre e que cada um faça sua própria adaptação segundo sua capela, sua instituição, seu terreno ou seu setor.
As consequências do estilo e da mensagem de Jesus já as conhecemos, sabemos como Ele terminou na terra, mas também sabemos muito bem como continua hoje em glória e majestade, num espaço aberto a todos onde reinaremos com Ele. O que nos resta é pensar se acreditamos ou não, se acreditamos que Jesus realmente triunfou sobre aquele enorme fracasso em que tudo parecia acabar, se acreditamos que Ele realmente está no Céu e de lá, na terra conosco, “vigilante em nossas vigílias”, presente em nossas vidas, à distância de uma oração, de uma lembrança, de um pensamento, no Pão eucarístico que recebemos, na Igreja e nos irmãos e irmãs que caminham ao nosso lado.
Acreditamos nisso? Então vivamos em conformidade com isso, fazendo arder o fogo do amor de Deus por todos e todas, até as últimas consequências. Se não acreditamos, então peçamos ao Espírito Santo que nos ajude a conhecer bem a sua mensagem, a olhar mais alto e a aceitar que o triunfo e a paz que este mundo oferece não têm a última palavra.
“Viver sem fé, sem um patrimônio a defender, sem manter uma luta pela Verdade não é viver.”
Beato Pier Giorgio Frassati
Irmã Rina Fernández Arévalo
Comunidade de La Serena – Chile
Província Santa Rosa de Lima












