As leituras deste segundo domingo da Quaresma oferecem-nos uma mensagem muito concreta de esperança e compromisso. Falam-nos de vocação, transformação e missão.
Na primeira leitura, a figura de Abrão recorda-nos que a fé é sempre um chamado a sair das nossas seguranças, da nossa zona de conforto, para nos colocarmos a caminho, sustentados pela promessa de Deus. São Paulo exorta-nos a viver com coragem a vocação recebida, apoiados na graça que nos foi dada em Cristo Jesus. No Evangelho, somos convidados a contemplar o mistério da Transfiguração, que nos recorda que o encontro com o Senhor ilumina sempre o caminho, fortalece a fé e renova o compromisso.
No monte, Jesus manifesta a sua glória diante de três dos seus discípulos —Pedro, Tiago e João— e oferece-lhes uma experiência de luz que os fortalece para enfrentar o caminho rumo a Jerusalém e o escândalo da cruz. A voz do Pai ressoa com clareza: «Este é o meu Filho amado, escutai-o». É uma forma de orientar o caminho do discípulo para a confiança e a fidelidade.
Neste tempo quaresmal, também nós somos hoje convidados a «subir ao monte», a parar, a contemplar e a deixar-nos transformar pela presença de Deus. Em meio a um mundo marcado pela incerteza, pela violência, pelo sofrimento de tantos povos e pela fragilidade da vida, a Transfiguração torna-se um apelo à esperança: Deus não nos abandona; a sua luz continua a brilhar mesmo na noite.
A experiência da Transfiguração encontra um eco profundo na vida do nosso fundador, São Francisco Coll. Ele viveu num tempo conturbado, marcado por guerras, perseguições religiosas, pobreza e fraturas sociais. No entanto, não se deixou vencer pelo medo nem pelo desânimo. Pelo contrário, soube «sair da sua terra», ler a realidade com um olhar de fé e responder com criatividade evangélica. Como verdadeiro profeta de paz e esperança, anunciou incansavelmente o Evangelho, convencido de que a educação, a pregação e a proximidade com os mais necessitados eram caminhos privilegiados para transformar o mundo. Soube subir ao monte da oração e da contemplação, para depois descer ao plano da história e entregar a vida ao serviço dos outros, especialmente dos mais desfavorecidos. Deus era a luz que orientava o seu caminho e as suas noites escuras.
Francisco Coll deixou-se transfigurar por Deus para transfigurar a sociedade do seu tempo. Dessa experiência interior brotaram a sua paixão pela missão, a sua entrega sem reservas e a sua firme confiança na ação de Deus, mesmo no meio da fragilidade humana.
Hoje, como então, vivemos tempos complexos. As guerras, as migrações forçadas, a crise climática, a solidão, a pobreza, a desigualdade e a perda do sentido transcendente geram medo, cansaço e desorientação. Diante desta realidade, a Palavra de Deus e o testemunho de São Francisco Coll convidam-nos a «sair da nossa terra», colocando a nossa confiança em Deus, e a não nos instalarmos na resignação nem a fugir da realidade, mas a levantar o olhar e a deixar-nos iluminar pela presença do Senhor.
A voz do Pai continua a ressoar: «Escutai-o». Escutar Jesus hoje implica compromisso e escolhas em favor da cultura do encontro, da não violência, da justiça, do cuidado da vida e da defesa da dignidade de toda pessoa.
Como aos discípulos, Jesus diz-nos: «Levantai-vos, não tenhais medo». Que este tempo de Quaresma nos ajude a aprofundar a escuta da Palavra, a renovar a nossa vida interior e a fortalecer a nossa missão evangelizadora, para continuarmos a ser, ao estilo de São Francisco Coll, testemunhas da luz, da paz e da esperança no nosso mundo.

Irmã Gloria Cañada Millán













