At 2, 1-11; Sl 103; 1Cor 12, 3b-7.12-13; Jo 20, 19-23
Pentecostes irrompe sempre no meio dos nossos medos. O Evangelho de hoje apresenta os discípulos fechados, com as portas trancadas, feridos pela ausência, confundidos pela dor e paralisados pela incerteza. E é precisamente ali que Jesus Ressuscitado se faz presente: não espera que eles sejam fortes, não exige respostas, nem reprova a sua fragilidade. Simplesmente entra, coloca-se no meio deles e lhes oferece aquilo de que mais necessitam: “A paz esteja convosco”. Depois sopra sobre eles e lhes comunica o seu Espírito.
Como esta cena ressoa profundamente atual em nossa vida religiosa e em nossa missão dominicana. Também nós conhecemos portas fechadas: cansaços acumulados, buscas sem resposta imediata, comunidades feridas, incertezas diante do futuro, lutas interiores que às vezes nos silenciam e nos roubam o ardor da pregação. E, no entanto, Pentecostes volta a recordar-nos que o Espírito Santo não desce sobre uma comunidade perfeita, mas sobre uma comunidade necessitada de vida nova.
O livro dos Atos descreve aquele momento como um vento impetuoso e línguas de fogo. O Espírito não chega de maneira decorativa nem superficial. Chega para sacudir, incendiar, desinstalar e enviar. O vento move o ar estagnado; o fogo ilumina e consome aquilo que já não dá vida. Pentecostes não é uma recordação piedosa: é uma força viva que continua impulsionando a Igreja para fora, para as periferias humanas, para os corações sedentos de esperança.
E talvez hoje, como filhas de São Domingos de Gusmão e de São Francisco Coll, sejamos chamadas a perguntar-nos com sinceridade: o que o Espírito precisa incendiar novamente em nós? Que parte da nossa vocação foi se acomodando? Que espaços precisam voltar a ser habitados pela paixão do Evangelho?
Não é por acaso que, como Família Dominicana, também comemoramos a transladação do nosso Pai São Domingos precisamente no contexto de Pentecostes. Porque Domingos foi um homem totalmente habitado pelo Espírito. Não pregou a partir do conforto nem de uma teoria vazia; pregou a partir de um coração abrasado pela compaixão e pela verdade. Suas lágrimas noturnas, sua proximidade com os pobres, seu amor apaixonado pela Palavra e seu desejo incansável de salvação para todos nasciam de uma profunda experiência do Espírito de Deus.
A tradição diz que Domingos “falava com Deus ou de Deus”. E essa síntese encerra o próprio coração de Pentecostes: quem se deixa preencher pelo Espírito não pode permanecer fechado em si mesmo. O Espírito sempre nos faz sair, comunicar, anunciar e criar comunhão. Por isso São Paulo recorda hoje que “há diversidade de dons, mas o mesmo Espírito”. Ninguém possui o Espírito para si. Todo dom recebido tem sabor de missão e de serviço.
Em nossa espiritualidade da Anunciata, Pentecostes possui uma ressonância particularmente bela. Maria, a mulher do anúncio e da escuta, estava ali, no meio da comunidade crente, esperando o cumprimento da promessa. Ela não ocupa o centro, mas sustenta a espera; não faz ruído, mas permanece fiel; não busca protagonismo, mas acompanha o nascimento da Igreja. Quanto precisamos hoje aprender novamente esse modo mariano de viver a missão! Permanecer disponíveis ao Espírito, abertas às suas surpresas, capazes de sustentar a esperança mesmo quando os tempos parecem sombrios.
Talvez o maior perigo para a nossa vida consagrada não seja o cansaço, mas acostumar-nos a viver sem fogo interior. Uma comunidade pode continuar funcionando externamente e, no entanto, ter perdido a paixão. Pentecostes vem precisamente despertar-nos de toda tibieza espiritual. O Espírito Santo não nos quer sobreviventes de uma missão passada, mas mulheres profundamente vivas, capazes de anunciar com alegria que Cristo continua ressuscitado no meio do mundo.
Hoje o Senhor volta a soprar sobre nós. Volta a confiar em nossas mãos frágeis. Volta a enviar-nos para pregar, educar, acompanhar, escutar, curar feridas, semear esperança ali onde a vida parece apagar-se. E talvez o maior milagre de Pentecostes não seja falar diferentes línguas, mas reaprender a linguagem do amor, da proximidade, da fraternidade e da compaixão.
Que São Domingos de Gusmão nos ensine a arder pela verdade sem perder a ternura. E que o Espírito Santo faça de cada uma de nós uma palavra viva do Evangelho, capaz de anunciar, como Maria, que Deus continua fazendo novas todas as coisas.

Irmã Mariela Mareco
Província Santa Rosa de Lima













