Neste domingo em que a Igreja nos convida a contemplar a Sagrada Família, somos chamados a dirigir o nosso olhar para um mistério que transcende fronteiras, culturas, línguas e séculos: o mistério da família, berço de toda a humanidade. É o mistério de uma família humana habitada por Deus. Uma família como tantas outras, em todos os continentes, exposta ao desconhecido, atravessada pelo medo, mas sustentada pelo amor.
Com efeito, o livro do Sirácida introduz-nos na sabedoria antiga: honrar os pais, cuidar dos mais velhos, respeitar a memória, escutar a herança transmitida. Em África, na Ásia, na Oceania, na Europa ou na América, este valor da honra devida aos anciãos permanece profundamente enraizado nas culturas. Une as gerações e dá corpo à gratidão.
Paulo, na sua carta aos Colossenses, recorda-nos as virtudes da vida fraterna: a ternura, a bondade, a paciência, a humildade. São as fibras invisíveis que geram um clima onde cada um pode sentir-se acolhido, crescer e ser feliz no seio de uma verdadeira comunidade humana, seja ela familiar ou religiosa.
No Evangelho, contemplamos Jesus, Maria e José que se tornaram refugiados. A Sagrada Família parte para o Egipto, para uma terra estrangeira, portadora de uma promessa frágil. Família migrante, torna-se vulnerável. Hoje em dia ainda, famílias inteiras fogem da guerra, da miséria, das perseguições, da pobreza. Muitas vezes somos testemunhas destas tragédias. Sabemos como o tecido familiar está rasgado em muitas regiões do mundo. José, Maria e o menino Jesus conhecem o peso da incerteza, o sabor amargo do exílio. E, no entanto, através deles, Deus aproxima-Se de todas as famílias que sofrem; mesmo ferida, a família permanece uma fonte de vida. Nas diferentes culturas do mundo, a família continua a ser aquele lugar onde se aprende a amar, a deixar-se amar e a viver valores específicos.
– Em África, a família é frequentemente alargada e caracteriza-se pelo calor do clã, o respeito pelos anciãos.
– Na Ásia, a honra das gerações, a sabedoria partilhada à mesa.
– Na América Latina, a alegria do viver juntos, a ternura festiva.
– Na Europa, a transmissão do património, a força discreta da fidelidade.
– Na Oceania, a ligação à terra, as raízes na natureza e na história.
Contudo, na família nascem feridas, tensões, silêncios pesados… Neste sentido, a Sagrada Família nos é dada como modelo e sinal vivo de Deus que habita nas nossas fragilidades, de Jesus nascido na pobreza, e de um amor forte, discreto como um sopro.
Portanto, neste dia, demos graças a Deus por todas as famílias. Rezemos por aquelas que estão divididas, deslocadas, feridas. O nosso mundo precisa de famílias e comunidades onde reinem a humildade, a paciência, o perdão e a confiança. Que possamos, seguindo o exemplo da Sagrada Família, ser esse sinal de esperança para as nossas famílias. Ámen.

Ir. Regina ABITAN, OP
Vicariato São Francisco Coll













